|
Prof. Dr. Ernesto Jacob Keim
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Universidade Regional de Blumenau – FURB Janeiro de 2010
Resumo: O Bem Viver é apresentado nesse texto como um referencial para promover na educação, um movimento com base na filosofia da libertação, de transição da resistência para a insurgência. O Bem Viver é uma proposta desenvolvida junto às comunidades tradicionais da Bolívia e do Equador como meio para a descolonização do poder, do saber, do ser e da vida. Esse movimento se desenvolve por meio da educação, como uma proposta de organização do que pode vir a ser uma filosofia andina e latino-americana que viabilize libertação e vida com dignidade. No contexto desse texto o Bem Viver se desenvolve por meio de um resgate histórico e filosófico que fundamenta e viabiliza uma proposta de responsabilidade com a vida pautados na pedagogia freiriana que apresenta a libertação como resgate e revitalização da humanidade roubada. Esse texto se sustenta também na história que promoveu a passagem da resistência para a insurgência desencadeada por meio da educação desde o século XVI dando ênfase especial à proposta revolucionária inserida na Ética Social de Lutero e se sustenta no movimento ambientalista contemporâneo por meio dos Princípios Eco-Vitais da Ecopedagogia como agentes que viabilizem debate que interrogue o modelo civilizatório no qual estamos imersos.
Palavras chave: Ética e Educação; Ensino de filosofia; Bem Viver.
Introdução
A ética é apresentada nesse texto como meio referencial para a educação na medida em que contribui para o entendimento de qual é o ETHOS de cada pessoa no contexto da vida planetária. Essa palavra em grego significa o esteio maior que sustenta a barraca e seu significado como metáfora, dá sentido à ética como um dos meios fundamentais para sustentar a compreensão da vida no contexto social, local e planetário. Esse sustento, de certa forma se caracteriza como as normas e posturas que remetem ao que dá sustentação à sociedade e, por conseguinte, ao processo civilizatório sob o qual a vida se organiza. O contexto histórico de cada pessoa como elemento constituinte do ethos, se constitui em elemento referencial para a compreensão dos vínculos de cada um com a sociedade o que segundo Cezar Nunes (2008), nos remete a insurgir contra as posturas de obediência, subserviência e resignação que herdamos do processo medieval e colonial que gerou nosso modo de ser como organização civilizatória colonizada. A reação a essa condição instalada nos remete à diferenciação de ensino e educação considerando que o ensino se refere ao desenvolvimento do que já está consolidado e a educação se mostra como insurgência e como mudança radical no que está estabelecido. A Educação da Resistência à Insurgência A educação como ação revolucionária capaz de interferir no status do contexto de vida de cada pessoa, se referencia na história da sociedade eurocêntrica que alcançou a modernidade por meio de processo revolucionário, que traz a marca de mudança possibilitada entre outros por Gutenberger, com o desenvolvimento da produção de textos impressos com tipos móveis que se constituíram numa base do sucesso do também movimento revolucionário desencadeado por Martinho Lutero, apoiado pelo humanista Philipp Melanchthon e pelo artista e empresário gráfico Lucas Cranach . Esse movimento registrado como Reforma Protestante teve como mote o direito ao conhecimento, a ser estendido a todas as pessoas por meio da Educação, atendendo ao apelo de que ao lado de cada igreja deveria estar em funcionamento uma escola. Essa condição ma realidade se ampliou com a distribuição de um documento de protesto conhecido como “as 95 teses de Martinho Lutero” a quase todas as moradias da Alemanha na primeira metade do século XVI com o qual muitos iniciaram sua alfabetização. A alfabetização messe contexto se apresentou como educação revolucionária na medida em que, ao possibilitar a cada pessoa o poder de interpretar as escrituras e propagar as leis e os princípios que deveriam reger a sociedade, se sentiram mais emancipados. Dessa forma a educação se mostrou como referencial de libertação do jugo imposto pela tradição medieval, mas também foi a forma utilizada como meio de reação da Igreja, ao desenvolver o movimento de contra-reforma com a organização da Companhia de Jesus sob o comando de Ignácio de Loiola, que se caracterizou como um processo também educacional, mas conservador na essência ideológica e altamente eficaz quanto aos princípios operacionais. Esses dois movimentos por estarem vinculados e regidos por diferentes forças e poderes deixam evidente que os processos educacionais são políticos e por isso não são neutros nem isentos de intencionalidade. O movimento educacional promovido pela Cia. de Jesus executado pelos padres Jesuítas revitalizou os conceitos de obediência, subserviência e resignação que até nossos dias se apresentam como referenciais em nossa sociedade e nos diferentes sistemas escolares. Essa postura, no Brasil, foi reforçada no final do século XIX e início do século XIX com os princípios do positivismo, que referendaram o modelo mercadológico como o mais adequado para o progresso e a ordem. A subserviência e a resignação se mantêm na história pós-colonial, na medida em que as escolas submetem seus alunos a esse mesmo poder, mantendo a alienação e a ingenuidade que impedem reações contra esse estado de dominação gerador de miséria e marginalização. Esse desafio se agiganta na medida em que segundo Nunes (2008), a escola deixa de ser um local de desenvolvimento do conhecimento crítico para se constituir em ambiente de serviço social compensatório e de controle. Serviço social na medida em que ela além da função de ensino se coloca também como local de alimentação e atendimento médico. Essa necessária dimensão assistencial ao compensar a impossibilidade de a família prover sua prole dos requisitos mínimos para a vida digna, pode se apresentar como agente de acomodação e não de reação e insurreição contra o que lhes exclui a dignidade de prover as necessidades familiares. Essa argumentação traz para o debate a necessidade de que a educação para se caracterizar como emancipadora, deva ser tratada na perspectiva e no foco da Ética como radicalidade a favor da vida, que se confronta com a moral que promove a organização da sociedade com seus contratos e estatutos de controle e normatização. Apesar dessa diferenciação, ética e moral não podem ser analisados separadamente pelo fato delas se manifestarem por meio dos humanos em suas múltiplas e complexas interações. Essa diferenciação se apóia na história dessas duas palavras, na qual a palavra ética, originária do grego que refletia os costumes e as tradições pelas quais as pessoas deveriam se portar nas cidades e na sociedade e a palavra moral que vem da tradição romana tinha um sentido próximo ao que a ética representava para os gregos. Até Kant essas duas palavras não foram diferenciadas, mas Hegel, estabeleceu que ética tinha um status diferente de moral, considerando as diferenças culturais e sociais de gregos e romanos. Com base nessa reflexão ética teria uma tendência para lidar com a vida e moral uma tendência para lidar com as questões referentes à sociedade. Os filósofos da Escola de Frankfurt, com destaque para Horkheimer e Fromm e depois Habermas, ampliaram essa posição ao ponto de se destacar a ética como norteadora das ações humanas de tal forma que privilegiem radicalmente a vida e moral como a norteadora dos comportamentos humanos em sociedade privilegiando a sociedade com suas tradições e contratos.
A ética como agente de resgate e revitalização da humanidade roubada Como vimos moral e ética apesar de serem diferenciadas estão intimamente vinculadas à vida humana e por isso devem ser analisadas e debatidas quanto aos seus pressupostos e fundamentos que lhes dão visibilidade e as tornam compreensíveis. Assim se pode dizer que tanto a ética quanto a moral são vinculadas diretamente pela cultura que permeia o cotidiano das pessoas e esse texto propõe que sejam debatidas e refletidas a partir de quatro aspectos, ou seja: poder, saber, ser e viver. Esses quatro aspectos apesar da subjetividade que lhes é natural, de certa forma indicam quatro possibilidades para conduzir essa reflexão, a qual se apóia em alguns aspectos que considero relevantes nas interações sociais e vitais para viabilizar esse debate. Esses aspectos foram organizados a partir da ética social de Martinho Lutero enunciada na década de 1520 por ocasião da revolução luterana contra a Igreja Católica Romana e dos referenciais de libertação e autonomia propostos por Paulo Freire em sua obra na segunda metade do século XX. Assim temos que para a ética: • A pessoa é livre de todas as coisas, não estando sujeito a ninguém, mas, por amor é servo de todos. É a radical serviçalidade. É a plena reciprocidade. • O que se recebe gratuitamente como o solo, o ar, a água bem como a liberdade, tem obrigação de fazer em gratuidade o mesmo com os demais entes planetários. • A dimensão coletiva da vida implica em superar o luxo e a ostentação, controlar o comércio, combater a usura e os monopólios, reabilitar os oprimidos e eliminar todas as formas de prostituição e exploração. • A habilitação das novas gerações deve superar a geração existente, no que se refere às ações que visam o bem comum e a integridade da vida. • A reorganização do mundo moribundo por meio de imersão em uma reforma social se dá ao debater e alterar as relações de poder, o uso do saber e a consciência do ser. • O melhoramento da sociedade será tarefa de responsabilidade de todos sem esperar por soluções mágicas, fantasiosas e espetaculares. • As ações humanas, devem se caracterizar como compromisso radical pela vida, rompendo com o que gera miséria e marginalização. • A exclusão e a dor devem ser superadas com a prática do inusitado, do excepcional e do inesperado para a valorização da vida em sua plenitude. • O ser humano tem a tarefa inadiável de cuidar do mundo, protegendo todos os ambientes e todos os seus integrantes com todas as suas forças. • O ser humano tem a obrigação de sobreviver mesmo em tempos difíceis, sem abalar sua determinação de priorizar a responsabilidade pelo coletivo planetário. • A promoção da educação da emancipação para a autonomia e a libertação, corresponde a cada um assumir o outro e todos os demais sendo por todos assumido. • A sociedade pautada na reciprocidade e responsabilidade com o bem comum é capaz de liderar, acumular, compartilhar, preservar e usar corretamente as riquezas, os recursos e todos os bens que a coletividade possui. • O ensino deve prover as pessoas de todas as classes sociais, com os saberes do passado e do presente para a construção e a organização de um futuro comprometido com a eliminação da miséria e das discriminações. • O conhecimento deve gerar mudanças necessitadas pela maioria, partindo do que é mais perceptível para aguçar as consciências e envolver a todos. • É fundamental registrar a história para que as gerações futuras possam ir além do que é conhecido e estabelecido. • Todos os cidadãos são iguais em direitos e deveres, desde que tenham as mesmas condições de formação, apropriação e construção do saber. • A educação merece cem vezes mais do que for gasto com o que denigre a vida.
Esse conjunto de posições pode ser acusado de se caracterizar como algo inalcançável, e de fato o é no contexto individualista, sectário e acumulador que constitui o modelo civilizatório no qual estamos imersos e que é parte da herança que nos foi legada pela dinâmica colonizadora que organizou grande parte do mundo moderno. Essas proposições tão distantes de nossa realidade, podem se caracterizar como incentivo para a necessária e corajosa ação de: descolonizar o poder rompendo com os princípios de fronteiras geográficas, de gênero, de raça, de classe e tantas mais; descolonizar o saber por meio da reabilitação dos saberes tradicionais e da valorização dos saberes gerados pelas pessoas que tiveram sua identidade e sua humanidade roubadas (oprimidas) e que ainda assim se mantêm vivas e ativas; descolonizar o ser pela superação da postura de inferioridade e subalternidade que tornam grande parte da população planetária invisível e desconsiderada como pessoas e descolonização da vida pela superação das relações binárias de natureza e sociedade, de objetividade e subjetividade e de materialidade e espiritualidade, dentre outras que reduzem a vida a uma mera função planetária subalterna ao capital e ao mercado. Assim a ética tem responsabilidade na descolonização ao assumir o debate em torno da sociedade dividida em classes e da lógica racista e hierárquica que permeia muitas relações humanas e que se constituem como bases estruturais da modernidade e do capitalismo global. É nesse ponto que a educação pode se manifestar com toda a sua potencialidade ao se assumir como portadora de iniciativas que a desloquem de uma posição de resistência para uma postura de insurgência. Essa condição viabiliza a educação como agente de mudanças na medida em que se organiza com base em alguns pressupostos como: Valorizar e estimular a pluralidade da ciência e do conhecimento; Priorizar os direitos da natureza se manter íntegra com sua capacidade de restauração preservada e Viabilizar como direito a todas as pessoas o que prescrevem os princípios Eco-Vitais integrantes da dimensão do Bem Viver como atributo para a integridade da vida, como algo maior que os conceitos de qualidade de vida e de viver bem os quais se caracterizam como atributos vinculados ao mercado. Valorizar e estimular a pluralidade da ciência e do conhecimento é romper com o controle imposto pela racionalidade iluminista e positivista que impõe uma ciência e um conjunto de conhecimentos referendados numa racionalidade que viabiliza e justifica as ações mercadológicas e posturas de controle sobre a sociedade, a natureza e a vida planetária. É a ruptura do ‘sempre foi assim’ para viabilizar abertura para outros referenciais de conhecimentos que contrariam e mesmo que desafiam o que está estabelecido, dando aos saberes tradicionais e ancestrais o status de conhecimento superando a forma preconceituosa com que são rotulados como crendices e folclore. Priorizar os direitos da natureza é considerar a dimensão planetária como portadora de direitos superando a lógica de hierarquia que estabelece prioridades e superioridades, as quais, mais mutilam e lesam, do que restauram e viabilizam a partilha e a vida coletiva. Priorizar a natureza como portadora de direitos é superar a lógica mercadológica e extrativista de que o planeta se configura como fonte inesgotável de bens e recursos. A restauração da natureza e das condições planetárias deve se constituir em prioridade que escape da espetacularização e da postura utilitarista que permeia o modelo civilizatório vigente que ridiculariza e desconsidera os saberes dos povos tradicionais que durante milênios aprenderam a conviver e não a dominar o planeta. A arrogância do saber contemporâneo como único, melhor e mais adequado, precisa ser questionado e revisto por posições mais abrangentes que promovam a inserção da vida como o referencial na gestão planetária. O Bem Viver e os Princípios Eco-Vitais O resgate histórico e a argumentação analítica dos meios em que se desenvolve a vida cotidiana nos remetem à necessidade de buscar meios que viabilizem uma abordagem diferenciada para analisar o que promove e mantém o modelo civilizatório excludente e sectário no qual estamos imersos, assim, buscamos com esse debate viabilizar o direito a todas as pessoas ao Bem Viver o que nos remete a mais recente Constituição Federal do Equador, (WALSH, 2009) que estabelece como dever e responsabilidade do Estado potencializar os saberes ancestrais para contribuir para a realização do Bem Viver ou “sumak kawsay” que prescreve a interação do conhecimento ancestral e contemporâneo com e para a vida e que considera a convivência cidadã como interação da diversidade e harmonia com a natureza planetária que integra o material, o planetário, o espiritual e o cósmico para a resolução autônoma das necessidades individuais e coletivas pautados na lógica da correspondência, da complementaridade e da reciprocidade conforme destaca Levinás (1997). Bem Viver é então a ruptura da visão alienante do individualismo do ‘ter’ e se mostra como a capacidade de questionar as verdades estabelecidas para gerar o ‘bem estar neoliberal’ e superar a verdade apoiada na racionalidade da produção material para manter ativa a dinâmica do mercado. Dessa forma o Bem Viver na constituição equatoriana estabelece eixos chave como: água e alimentação; cultura e ciência; educação, hábitat e moradia; saúde, trabalho, direitos das comunidades, povos e naturalidades; direitos da natureza, economia, participação e controle social, integração latino-americana e ordenação dos territórios. Esses eixos apresentam uma chave para um novo contrato social e uma nova possibilidade civilizatória que retome, resgate e reconduza a vida ao seu patamar de prioridade ética. Esses aspectos referenciais que prescrevem os princípios Eco-Vitais integrantes da dimensão do Bem Viver apoiados na valorização e estimulo da pluralidade da ciência e do conhecimento, na priorização dos direitos da natureza se manter íntegra em sua capacidade de restauração e preservação e a viabilização do direito a todas as pessoas ao que prescreve o Bem Viver, se apóia em princípios que se mostram como elementos referenciais para a educação que se caracterize como emancipadora da vida. Assim, essa condição do Bem Viver como ruptura à qualidade de vida alienante com base no mercado, nos remete ao que denominamos princípios Eco-Vitais que se caracterizam como direito inalienável de todas as pessoas desfrutarem de forma digna de: Alimento bom e suficiente para garantir a vida com saúde e capaz de possibilitar ao humano, o aproveitamento pleno de suas potencialidades; Abrigo que atenda às necessidades de proteção e conforto para o bem estar e o pleno uso das potencialidades de cada pessoa e do grupo social, na forma de moradias que respeitem as necessidades bio-psico-socio-transcendentes-unicitárias dos humanos, com destaque para horizonte visual, sonoridade, luminosidade, temperatura, privacidade e arejamento, bem como em vestimentas que respeitem a história e as características regionais e climáticas, tendo o planeta como abrigo de todos os viventes. Ocupação que valorize a capacidade potencial de criação, produção e inteligência das pessoas que se responsabilizem com as conseqüências decorrentes de seu fazer e de suas interações para superar as necessidades coletivas e sociais com foco no pleno aproveitamento do potencial de cada um. Afeto como meio que promove a amorosidade e a sensibilidade das pessoas com o que gera e promove a vida, bem como para uma sexualidade de comunhão do prazer que gera mais vida e amplia a auto-estima e a dignidade; Partilha como garantia de benefício extensivo a todos os humanos, da transformação de materiais e idéias em melhores condições de vida e maior integração e interação com os ambientes do planeta; Cuidado como responsabilidade coletiva com o bem estar de todos, para relacionamentos e meios que desencadeiem posturas de atenção, respeito e valorização das diferenças e dos diferentes e Espiritualidade entendida como a consciência e vocação de todo ser humano em Ser Mais, de forma consciente de que todos e tudo se desenvolvem em íntima relação de eco-desorganização/organização e de que tudo e todos interagem para transcender a materialidade referenciada em padrões limitados e limitadores de tempo e espaço. No contexto desses princípios Eco-Vitais, cabe à Educação da Emancipação humana para o Bem Viver, desenvolver quanto aos alimentos, luta contra a comida privatizada e adonada como é o caso da transgenia e da eliminação das sementes caboclas; quanto aos abrigos cabe a superação da desumanizadora política de ocupação dos territórios e distribuição de espaços referendada pelo mérito econômico, cabendo o debate sobre as formas de transformação energética e material que esgotam recursos e poluem os ambientes; quanto à ocupação cabe a denúncia e instigação das pessoas para dar dignidade ao seu fazer cotidiano para ele se constituir em meio que promova a vida e deixe de ser apenas a obtenção de recursos para a sobrevida; quanto aos afetos cabe à Educação desencadear motivações criativas, ousadas e corajosas para oportunizar relações de reciprocidade e ternura caracterizada pela leveza, decência e amorosidade; quanto à partilha cabe debater a perspectiva da sociedade ser dividida em classes como denuncia de por dessa divisão ser lícita a relação na que uns roubam a humanidade dos demais e outros, os oprimidos, são os que têm a humanidade roubada sendo impedidos de usufruir da plena condição de humanos; quanto aos cuidados a educação deve estimular a comunhão e a parceria desencorajando a competitividade e a mentalidade do individualismo apregoado pela vantagem e quanto à espiritualidade a Educação da Emancipação pode estimular os pressupostos da ética e da convivência fraterna e amorosa que inclui e valoriza o potencial individual com suas particularidades para a construção da identidade coletiva referendada na reciprocidade e na amorosidade crítica e responsável. Como vimos os princípios eco-vitais se caracterizam como um referencial para caracterizar a cidadania planetária como algo disponível a todos os humanos e para tal é fundamental que a ética conquiste e ocupe o espaço que lhe é devido ao se confrontar com a estética e a política para romper a ilusão do paraíso e do mercado como sistemas compensatórios aos males presentes. A ética deve e pode se mostrar como possibilidade de compromisso e responsabilidade com a vida coletiva pautada na reciprocidade e para tal é necessária uma profunda ruptura com os modelos e os paradigmas que referenciam nosso referencial civilizatório. Com base nessa possibilidade e ideal é importante o conhecimento e o confronto dos Princípios Eco-Vitais como parte inalienável e referencial do Ethos, do Esteio, sob o qual se ergue a vida de cada pessoa no contexto do processo civilizatório. Esse confronto pode ser importante base, para uma argumentação de emancipação e identidade humana, que organize um movimento educacional que evolua da resistência para a insurgência tendo como foco a superação da dinâmica de educação escolar que silencia e paralisa os corpos e as mente. Conhecer o Ethos no contexto dos Princípios Eco-Vitais, pode então significar a capacidade para cada pessoa e cada grupo social se colocar a serviço da mudança e não da manutenção do estado de alienação e acriticidade, que permeia importantes segmentos da sociedade planetária. Também pode ser uma alternativa para dar aos corpos dos humanos a devida importância e o devido status de meio de relação e mudança para promover fartura compartilhada e conscientização comprometida com a plenitude da existência. Como decorrência dessa abordagem, que apresenta o ethos e os princípios eco-vitais como fundamento para refletir a dinâmica que norteia a sociedade e o modelo civilizatório no qual estamos imersos, Paulo Freire, segundo ROMÃO (2003) evidencia a opressão como a ação em que a humanidade das pessoas é roubada e essa ação de rapina se apóia em cultura que naturaliza as ações da sociedade, que justifica as apropriações e que aliena as pessoas cuja humanidade foi roubada, mas a esperança freiriana se manifesta no contexto da emancipação ao evidenciar que as pessoas que tiveram sua humanidade roubada, pode se emancipar e superar essa condição na medida em que reverterem à naturalização pela historicização, a apropriação pela socialização e a alienação pela conscientização e engajamento crítico a favor de mudanças que revertam à condição de humanidade roubada para uma posição de humanidade compartilhada e recíproca. Essa condição de humano em permanente processo de libertação assume uma condição que o capacita a lidar com as fronteiras como possibilidades de identificação e não de isolamento que estabelecem entre-espaços numa perspectiva permanente de construção e reconstrução dos ambientes e dos sujeitos. Dessa forma as fronteiras estabelecidas pela história e pela cultura de cada grupo humano, se constitui em importante ponto a ser focado pela Educação da Emancipação no sentido de promover uma postura na qual as fronteiras podem tanto estabelecer isolamentos como podem promover libertação e espaços de resistência e enfrentamento. Com essa posição a cidadania como uma ontologia planetária constituída pelo Ethos referendado nos princípios Eco-Vitais se mostra como possibilidade de: ... dinamizar o debate referente ao resgate da humanidade dos oprimidos. ... questionar a partilha dos bens para reinventar relações e formas de trocas. ... desafiar o conhecimento sem alma, sentimento e ética convertendo-o em sabedoria. ... priorizar as responsabilidades com a comunidade com base na participação popular. ... debater as diferenças entre as classes sociais que fragmentam a vida. ... incentivar a responsabilidade como algo maior que os ganhos e as vantagens. ... estabelecer limites e possibilidades que caracterizam o cidadão planetário; ... denunciar o espetáculo na educação como gerador de ilusão que aliena e escraviza. ... destacar que as minorias são partes importantes da humanidade. ... estabelecer limites entre o que é profético e o que é essencial no conhecimento. ... manter vigilância sobre a tendência do macro, definir o micro. ... superar a ilusão de que os que têm mais mandam e quem tem menos obedecem. ... questionar a tradição dos direitos se manterem acima da responsabilidade. ... perceber política, como participação, emancipação e organização de libertação. ... tratar a vida e a sociedade como dinâmica caótica, quântica, relativa e complexa. ... caracterizar cada pessoa como um potencial “ser totalmente vivente”. Dessa forma, ser cidadão na perspectiva de uma ontologia planetária como Ser no Mundo, que tem vocação permanente de Ser Mais, implica em conhecer o seu lugar dentro do infinito e saber que é parte do todo e não apenas do lugar que ocupa. Ser no mundo consciente de seu Ethos mostra a condição da pessoa como humano capaz de superar os movimentos que o reduzam a “um não valor”. O “não valor” caracteriza a incapacidade de gerar posses e assim, essa pessoa, incapaz de gerar posses se caracteriza pela completa exclusão da riqueza, fazendo com que ela deixe de existir. Assim, o trabalhador sem trabalho remunerado com justiça é um ser que não tem o direito a usufruir dos Princípios Eco-Vitais e por isso se torna invisível. Sem os bens materiais no contexto civilizatório dominado pela ideologia capitalista e neoliberal a pessoa perde sua identidade ontológica e por isso sua bagagem epistemológica não se caracteriza como um bem a favor de sua vida, da mesma forma que os saberes tradicionais dos indígenas e dos quilombolas são rejeitados pelo modelo civilizatório vigente.
O Bem Viver e a Libertação como resgate da Humanidade Roubada
Nesse sentido ao se considerar o que esse artigo já apresentou como referenciais para uma Educação para a Emancipação humana para a libertação e superação do que gera opressão e marginalização, vimos que a educação deve se apresentar como base para o Bem Viver como o anúncio que complementa essa abordagem referente à forma como as pessoas podem agir para promover educação emancipadora como insurreição e revolução. Insurreição e revolução que se assentam na superação da alienação e da ingenuidade pela conscientização e criticidade como meios para perceber as questões que subjazem ao que já está estabelecido. Fica assim a orientação para o desenvolvimento de conhecimentos que tenham a história e a pluralidade cultural de diferentes povos que habitam e habitaram esse planeta, como fontes de dados e conhecimentos, para uma política e uma abordagem geradora de libertação e autonomia, como base para alcançar o Bem Viver. Entende-se Bem Viver como o conjunto de medidas que consideram prioritária a vida planetária. Nessa proposta está a necessidade de superação das fronteiras e barreiras físicas e simbólicas para que alimento, abrigo, ocupação, afeto, partilha, cuidado e espiritualidade, com dignidade, sejam de fato, uma realidade para todos os humanos. Também na perspectiva do Bem Viver a terra e a água são tidas como “vivas e sagradas” devendo ser preservadas e distribuídas com responsabilidade para que não se contaminem. Na perspectiva do Bem Viver, todas as pessoas e todos os integrantes da biosfera são acolhidos sem hierarquia de valor, de tal forma que ele vai além do que a sociedade de mercado chama de Qualidade de Vida e de Viver Bem as quais se apóiam nas leis do mercado, pois visam o lucro individualizado e a acumulação particular. Qualidade de Vida e Viver Bem não têm como foco a distribuição equitativa dos recursos e meios, tanto naturais quanto industrializados, para atender às necessidades vitais das pessoas e dos grupos sociais. Essas duas propostas pelo fato de se apoiarem na lógica neoliberal de mercado, não se responsabilizam pela miséria e a marginalização decorrentes de suas ações, as quais são classificadas como efeitos colaterais indesejáveis, mas circunstanciais. Em contra partida à Qualidade de Vida e ao Viver Bem a proposta do Bem Viver se apresenta como compromisso inegociável com a responsabilidade de viabilizar os Princípios Eco-Vitais como condição e premissa fundamental para garantir a vida como direito inalienável de todos os humanos e por isso, devem ser considerados como referenciais essenciais para o desenvolvimento de proposta civilizatória que se referencia na “Ética universal dos seres humanos” proposta por Paulo Freire no contexto de toda a sua obra. O Bem Viver com base nos Princípios Eco-Vitais se caracteriza pelo desenvolvimento de processo civilizatório, que garante vida com dignidade desenvolvendo meios para lidar com as forças e poderes que agem como encorajadores de projeto humano ousado e necessário o qual se reveste de permanente necessidade de revisão do processo civilizatório considerando as organizações desenvolvidas e mantidas por humanos as quais impõem seus fundamentos e princípios aos demais humanos e aos ambientes planetários. A dinâmica dessas relações que se caracterizam como políticas e ideológicas caracterizam-se como algo que se desorganiza e se organiza indefinidamente, como processo que gera valores que podem promover novas formas de convivência que tanto podem promover emancipação da vida como podem cerceá-la. Esse processo é político na medida em que as pessoas envolvidas têm consciência das forças e poderes que sofrem e que exercem; que façam debates referentes às implicações com as forças e poderes que sofrem e que exercem; que tenham clareza quanto aos compromissos que assumem frente às forças e poderes que sofrem e que exercem e que se responsabilizem frente aos atos e ações realizadas com base nessas forças e poderes. Essa visão freiriana de política nos remete à percepção de que todas as ações humanas são políticas e por serem intencionais, são também ideológicas. Essa condição da ação humana não permite que as pessoas se omitam desse debate. Ignorar as forças e os poderes que perpassam a vida e todos os processos constituintes do modelo civilizatório equivale a uma alienação que transfigura as pessoas em meros objetos de manipulação e jogo, que consolida e referenda o poder opressor. Da mesma forma que ninguém pode desconhecer a lei, ninguém pode desconhecer e desconsiderar os poderes e forças que sofre e que exerce. Essa também é uma importante atribuição de uma educação que se proponha emancipadora. O Bem Viver é dessa forma uma proposta que a nosso ver deverá permear todas as atividades que tenham sentido e importância para viabilizar a identidade da pessoa como ser responsável pela vida planetária e também por sua própria vida como permanente processo de construção e reconstrução do que gera vida em plenitude. Nessas atividades que são exclusivas dos humanos, a construção da individualidade é um ponto fundamental para a construção da identidade coletiva. Assim, a pessoa na medida em que tem sua identidade anulada, ela tem sua humanidade roubada o faz com que a pessoa perca de foco sua natureza de pessoa vocacionada para a libertação e a autonomia. A pessoa reduzida a uma mera coisa produtiva, cuja identidade humana foi roubada, seja em qualquer ambiente, do mais simples trabalho braçal ao trabalho nas academias, universidades e laboratórios, se constitui em um oprimido invisível. O oprimido é dessa forma aquele que tem sua identidade negada e sua humanidade roubada. Assim, cabe à Educação para a Emancipação resgatar a condição de que a pessoa somente é sujeito quando está em pleno uso e consciência de seu estado de ser em permanente e ininterrupto processo de libertação, consciente de sua condição de ser vocacionado a ser livre e ético. Referências: ASSMANN, Hugo. SUNG, Jung Mo. Competência e sensibilidade solidária – educar para a esperança. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. BOFF, Leonardo. Ética e moral: a busca dos fundamentos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. _____. Saber cuidar. Petrópolis: Vozes, 1999. CONSTITUCIÓN de 2008, Quito, Rep. de Ecuador, 2008, Art. 387 DEBORD, Guy. A sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. DUSSEL, Enrique. Filosofia da Libertação: Crítica à Ideologia da exclusão. São Paulo: Paulus, 1995. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. _____. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. GOERGEN, Pedro. Pós-modernidade, ética e educação. Campinas: Autores Associados, 2001. (Polêmicas do nosso tempo, 79). GUTIÉRREZ, Francisco. Ecopedagia e cidadania planetária. São Paulo: Cortez, 2002. KEIM, Ernesto Jacob. A educação na perspectiva da planetaridade. Blumenau: FURB, 2003. (Mimeo). LEVINÁS, Emanuel. Totalidade e Infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1980. NUNES, César. Aprendendo Filosofia. 2ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1987. _____. Educar para a emancipação. Fpolis, SC: Sophos, 2003. OLIVEIRA, Lilian. Formação de docentes para o Ensino religioso: Perspectivas e impulsos a partir da Ética Social de Martinho Lutero. São Leopoldo RS: EST, tese de doutorado, 2003. SILVA, Divino José da. Ética e educação para a sensibilidade em Max Horkheimer. Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 2001. SUNG, Jung Mo. A idolatria do capital e a morte dos pobres. São Paulo: Paulinas, 1989. WALSH, Catherine. Interculturalidade e (dês) culturalidade: Perspectivas críticas e políticas. In XII Congresso da ARIC, Florianópolis, Brasil, 29 de junho de 2009. |