Filosofia e Tecnologia PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Silvia B. Z. Cadenassi   
Qua, 27 de Janeiro de 2010 12:35

Artigo apresentado no II Simpósio Sobre Ensino de Filosofia - Simphilo Dias 09, 10 e 11 de dezembro de 2009 na FE/Unicamp, publicado sob autorização da autora

 

Silvia B. Z. Cadenassi
UENP/PR
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Resumo
A Filosofia se apresenta como reflexão crítica sobre as questões que envolvem o ser humano e a organização da sociedade. Ao criar o Curso de Licenciatura em Filosofia da UENP, algumas questões foram fundamentais, com o: a formação omnilateral do ser humano e, de maneira especial à preparação de profissionais para refletirem e atuarem o ensino de Filosofia no Ensino Médio, na articulação da Filosofia com os demais saberes, e como utilizar os novos recursos tecnológicos disponíveis, sobretudo às tecnologias computacionais; pois trata-se da etapa final da educação Básica e segundo a LDB nº 9394/96 sua função é consolidar e aprofundar a formação geral do educando preparando-o para a cidadania e para o trabalho, de forma a oferecer-lhe condições para uma formação ética e intelectualmente autônoma. A Filosofia tem a função de articulação cultural e, ao desempenhá-la, realiza também a articulação do indivíduo enquanto personagem social, se entendermos que o autêntico processo de socialização requer consciência e o reconhecimento da identidade social e uma compreensão crítica da relação homem-mundo (LEOPOLDO E SILVA, 1992, p. 162).


Palavras chave: Tecnologias; Realidade; Educação.


O momento histórico em que vivemos apresenta complexíssimas características por representar a transição, não somente de século e de milênio, mas de época. A confiança depositada na razão concentrou-se na razão científica. A partir daí, acreditou-se na expectativa de solução de todos os problemas por via cientifica, e que esta estimularia o desenvolvimento das ciências sociais. Os critérios de avaliação dos comportamentos humanos utilizados pelas ciências passaram a substituir aos poucos os critérios fundados na religião e nos sistemas filosóficos. Talvez, o fim da forma de pensar que teve inicio Época Moderna, explicitada na proposta de que o homem deveria explorar o conhecimento para dominar e se atrelar à natureza, ou, colocar-se a seu serviço. Mas o que se viu foi o progressivo afastamento do homem em relação à natureza. Não resta dúvida de que os acontecimentos do século XX provocaram significativas mudanças na história da humanidade. Em nosso país o fato marcante segundo o qual até hoje sofremos as conseqüências foi a perplexidade e a desorientação provocada pelo golpe militar de 1964, quando nos foi retirado o estado de direito, e seu efeito catastrófico para com a cultura e educação. É interessante lembrar as reflexões de Luiz Antonio Cunha a respeito das dificuldades surgidas para implantação de diretrizes e metodologias para se trabalhar na escola. Mas, este também foi o século que produziu o maior avanço da ciência e da tecnologia, em que o progresso e o conforto se expressaram pelo refinamento da racionalidade técnica. Do ponto de vista da tecnologia foram notáveis as transformações como as novas fontes de energia, o crescente processo de urbanização, a automação das fábricas, o desenvolvimento da medicina, a revolução nos meios de transportes e nas comunicações, enfim vivemos a época da sociedade da informação.

O fenômeno da globalização e da sociedade da informação, estimulado pelo avanço tecnológico, provocou alterações no trabalho, na família e, conseqüentemente, exigiu novos procedimentos para se trabalhar na escola. Alterações que provocam a compreensão da realidade, pois estamos vivendo momentos de definições no sentido de escolher de que maneira evemos nos utilizar as tecnologias disponíveis para subsidiar o ensino e a  aprendizagem nas escolas, sobretudo às tecnologias computacionais principalmente para o ensino de Filosofia. Acompanho discussões a respeito e tenho percebido as dificuldades da prática dessa tarefa, até porque, os alunos de hoje estão inseridos no mundo informatizado e, cabe a nós professores e aos futuros educadores nos dar conta desse fato e nos preparar para utilizar os novos recursos tecnológicos e, efetivamente sair do campo da discussão para o campo da ação. Afinal temos que descobrir as reais possibilidades da utilização dessa tecnologia para educação e para o ensino da Filosofia. Ao situar o problema, vejamos algumas opiniões de alguns filósofos que marcaram a cultura moderna e contemporânea.


Sabemos que a filosofia permite o conhecimento racional, um exercício da razão. [...] A partir do século VI a.C., quando passou a circunscrever todo o conhecimento da época em explicações racionais. A razão indagava a natureza e obtinha respostas a problemas teóricos, especulativos. Até o século XVI, o pensamento permaneceu imbuído da filosofia como instrumento do pensamento especulativo. [...] Desta forma, a filosofia representou, até o advento da ciência moderna, a culminância de todos os esforços da racionalidade ocidental. Era o saber por excelência; a filosofia e a ciência formavam um
único campo racional (ARAUJO, 2003, p. 23-24).


Desde o início da era Moderna, séculos XVI-XVII, Descartes e Bacon já formularam o que foi o grande lema da técnica nos novos tempos e, que até hoje ainda conserva sua atualidade, a saber: nas palavras de Descartes: “a idéia de que pela ciência e pela técnica o homem se converteria em senhor e possuidor da natureza” – algo parecido com o que Bacon e Foucault nos colocam – “saber é poder”. Essa visão da técnica como instrumento ou meio de poder foi adotado no decorrer do século XVIII pelos iluministas, que associaram tal visão à idéia de progresso, ao papel libertador do conhecimento (livrar os homens das trevas da ignorância) tencionando a geração do novo homem; autônomo, racional e livre. Por volta do século XIX, Marx mantém a idéia da ciência e da técnica como instrumento de poder quando comenta sua utilização às forças produtivas da economia a serviço do capital, em vez da utilização para liberdade do homem, acabam por serem utilizadas como instrumento de dominação do homem pelo homem. Numa conhecida  passagem dos Manuscritos econômico-filosóficos, Karl Marx argumenta que “o homem se afirma no mundo objetivo, não apenas no pensar, mas também com todos os sentidos”  (MARX, 1987, p. 178) e os sentidos não são apenas naturais, biológicos e instintivos, mas também transformados pela cultura, No século XX, após a segunda Grande Guerra, Adorno, preocupado com o destino da técnica moderna e com seu uso como valor cultural e sua função de ideologia ou arma ideológica ou também como instrumento de dominação do homem pelo homem, mostra o tipo de homem requisitado pela civilização, “um indivíduo tecnologizado” (quando fala do amor objetal do homem pelos artefatos tecnológicos, atestado na expressão em inglês “Ilike nice equipament” = Eu gosto de equipamentos). Diante dessas posições constata-se que mesmo com olhares otimista de Descartes, Bacon e dos iluministas, da crítica de Marx e do pessimismo de Adorno, observa-se um ponto em comum a ser ressaltado: falam da ciência e da técnica a partir de um mesmo lugar ou ponto de vista e com base no mesmo parâmetro:
 o lugar é o homem e o ponto de vista: o homem; o parâmetro é a ciência e a técnica como instrumento e meio de poder e, como tal, vinculada ao homem e a suas ações, seja para libertá-lo e oferecer nova morada, seja para manipulá-lo. Nesse contexto, Heidegger, nos mostra que a tecnologia não é um instrumento ou um meio, mas um elemento coligador, uma espécie de “armadura” que molda e instaura o homem à sua medida e conforme sua necessidade, ou como uma potência ou poder autônomo para o qual o homem não passa de um meio ou de um instrumento. Diante desses paradoxos, o que se abre é bem mais gravedo que o “enfeitiçamento” pela técnica, trata-se de um poder real, ante o qual terminamos  por nos sucumbir. Não se trata de descartar métodos e materiais de ensino utilizados até então, mas sim propor meios para minimizar o impacto natural decorrente das novas práticas tecnológicas.


O conhecimento científico, então, foi se desvinculou do pensamento teocêntrico e os saberes necessários para explicar o mundo ficaram a cargo do ser humano que pretendia explicar a natureza por meio de leis, princípios, teorias, sempre na busca de uma verdade expressa pelo método científico. Mas, a dimensão filosófica do conhecimento não desapareceu com o desenvolvimento da razão científica. Ambas caminharam no século XX, quando se observou a emergência de métodos próprios para as ciências humanas, que se emanciparam das ciências naturais. Assim, as dimensões filosófica e científica  transformaram a concepção de ciência ao incluírem o elemento da interpretação ou significação que os sujeitos dão às suas ações – o homem torna-se, ao mesmo tempo, objeto e sujeito do conhecimento.


Pensar em educação significa pensar no tipo de preparo para o enfrentamento dessa crescente complexidade e mudança de paradigma, pois qualquer projeto educacional deve incluir reflexões sobre valores, e estes como sabemos não são mais os mesmos, até porque, com o passar dos tempos surgiram novas visões de mundo e novas realidades. Filósofos contemporâneos chegam a considerar que novos parâmetros éticos devam ser formulados, já que os antigos não estão dando conta da problemática suscitada pela tecnologia. Sabemos que, toda cultura tem seus valores arraigados, mas estão sendo questionados à medida que a sociedade tecnológica evolui. E, quando se pensa em educação e em cultura, pensamos
imediatamente no ideal da Paidéia grega, ainda que no sentido do termo grego seja bem mais amplo do que o nosso termo educação, pois significa não só a formação e transmissão de valores e conhecimentos, mas o conjunto da própria cultura em que esses valores foram elaborados e recriados de geração em geração. Hoje, vemos a realidade como algo que está permanentemente em processo, apesar de saber que a consciência da história tenha se iniciado, na verdade com a Bíblia, e a vivencia do permanente devir começou a ser conscientizada apenas a partir do século passado, isto é, desde que o impacto da revolução Industrial e das mudanças que esta trouxe à vida das pessoas em todos os níveis sociais se fizeram sentir.


A nova interpretação da natureza como um organismo vivo é reforçado pelos meios de comunicação e toda humanidade se percebe atingida; os conceitos de estado e de soberania surgidos na Época Moderna se mostram ultrapassados sobrepondo-se as instituições supranacionais. E os meios de comunicação que aproximam a humanidade, estão quebrando as barreiras entre os povos e preconceitos arraigados no medo do  desconhecido. Mas, ao lado das vantagens percebe-se as sérias dificuldades dessa situação, sobretudo no que diz respeito à aprendizagem, pois consideramos a possibilidade de o homem dispor de um poder sem limitações que traz implícito a mentalidade de conhecer e reproduzir, que podem implicar em conseqüências graves, cujo valor moral e ético poderão  ser discutíveis, do ponto de vista da pesquisa.


O professor busca ensinar a pensar filosoficamente, a organizar perguntas num problema filosófico, a ler e escrever filosoficamente, a investigar e dialogar filosoficamente, a avaliar filosoficamente, a criar saídas filosóficas para o problema investigado. Como proposta para o ensino de filosofia propõe-se conteúdos como: mito e filosofia; teoria do conhecimento;  filosofia política; ética; estética e filosofia da ciência embora remetam-se ao saber produzido e acumulado pela humanidade o acesso a esses conhecimentos, por meio de textos, questionamentos e diálogos, [...] é do saber especializado e acumulado pela humanidade que devem ser extraídos os conceitos e os princípios a serem ensinados aos alunos” (LOPES, 2002, p. 151-152), a intenção é a de articular o espaço temporal e o sócio histórico para compreensão da linguagem, da literatura, da história, da ciência e da arte, para que nesse processo o aluno seja capaz de pensar e discutir e que nesse processo argumentem criem e recriem os conceitos filosóficos.


Não se pretende com este procedimento a especialização dos estudantes, mas um estudo com construído para que se resguarde o sentido político e educacional sob forma de processo, “processo de ensino deve transmitir aos alunos a lógica do conhecimento de referência. Embora de posse de alguns conhecimentos herdados culturalmente, o sujeito deve entender que isso não é todo o conhecimento possível que a inteligência tem e é capaz de ter do mundo, e que existe uma consciência, uma necessidade intrínseca e natural de continuar explorando o “não saber” (CHAUÍ, 1997).

Referências:
ARANHA, Maria L. A.. MARTINS, Maria H.P. Filosofando. São Paulo: Moderna, 1993.
ADORNO, T. Educação após Auschwitz. In: Educação e emancipação. São Paulo: Paz e Terra,1995.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática,1995.
CUNHA, Luiz A. Educação. Estado e democracia no Brasil. São Paulo: Cortez, 1991.

CURY, Carlos R. J. Educação e contradição: elementos metodológicos para uma teoria crítica do fenômeno educativo. São Paulo Cortez, 2000.
GRINSPUN, Mirian P.S. Zippin (Org). Educação Tecnológica: desafios e perspectives. São Paulo: Cortez, 2002.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p.178. Parâmetros Curriculares para o Ensino Médio. In: LOPES, A. C. e MACEDO, E.   (Orgs.) Disciplinas e integração curricular. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
RESENDE, Antonio.(org) Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
ROMANELLI, Otaíza de O. História da Educação no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2003.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. São Paulo: Cortez, 2001.

Revistas:
DOMINGUES, Ivan. Ética, ciência e Tecnologia. In: KRITERION, Revista de Filosofia, v.45, nº 109. Belo Horizonte, Jan/Jun, 2004 – ISSN 0100-512X.
OSTRONOFF, Henrique. Os perigos do Filtro Tecnológico. In: Revista Educação, SãoPaulo:Segmento, nº143, p. 24-30, Março 2009.
LEOPOLDO E SILVA, F. Por que a Filosofia no segundo grau. Revista Estudos Avançados, v.6, n. 14, 1992.

Última atualização em Ter, 06 de Abril de 2010 19:20
 
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