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O presente artigo foi apresentado no II Simpósio Sobre Ensino de Filosofia - Simphilo Dias 09, 10 e 11 de dezembro de 2009 na FE/Unicamp, publicado com autorização por email do referido autor Antonio Carlos de Souza Universidade Estadual do Norte do Paraná/PR
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Resumo Qual a importância da Filosofia e seu ensino na educação brasileira? É à luz da Filosofia da Praxis que propomos o debate sobre a Filosofia, seu conteúdo e método, como possibilidade de abordar os problemas que envolvem o ser, o agir e o existir humano. Isso significa que a Filosofia pode proporcionar uma reflexão-ação sobre as circunstâncias que são inseparáveis de uma reflexão-ação sobre as consciências. A Filosofia sempre esteve em relação com o mundo como seu objeto de interpretaçãocompreensão, assim como seu objeto de sua intervenção-ação. A relação entre conhecimento e ação é intrínseca tanto à teoria quanto à prática humana. A Filosofia tem um caráter de busca de compreensão do real, de ver o mundo como objeto de práxis. Isso significa teorizar sobre a prática. Neste sentido, a reflexão e a prática da Filosofia da Práxis cumprem sua missão histórica de ser uma crítica que questiona a própria problemática, o objeto, a finalidade, o método da Filosofia, que propicie ao ser social a condição de conhecer, de ter ciência do real e de, portanto, de orientar os rumos da história individual e coletiva, de intervir e transformar o mundo de forma livre, criativa, consciente, responsável.
Palavras-Chave: Filosofia; Praxis; Educação“Uma Filosofia da práxis só pode apresentar-se, inicialmente, em uma atitude polêmica e crítica, como superação da maneira de pensar precedente e do pensamento concreto existente” (GRAMSCI, 1995, p. 18). É à luz da categoria práxis que gostaríamos de propor o debate sobre a Filosofia, seu conteúdo e método, como possibilidade de abordar os problemas do conhecimento, da história, da sociedade e do próprio ser. Daí os problemas que envolvem a vida e o existir humanos serem objetos de uma reflexão filosófica que seja crítica e radical, formulados em relação à atividade prática humana, “Posto que o homem é o que é em e pela práxis -, histórico – posto que a história é, em definitivo, história da práxis humana , mas também gnosiológico - como fundamento e objetivo do conhecimento, e critério de verdade – e ontológico - visto que o problema das relações entre homem e natureza, ou entre o pensamento e o ser, não pode ser resolvido à margem da prática” (SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 1977, p. 36). Com estas premissas, queremos assumir uma Filosofia que seja uma proposta que torne a “admiração”, o “espanto”, uma efetiva potencialidade críticotransformadora. Karl Marx, na Tese XI sobre Feuerbach, diz que “os filósofos só interpretaram o mundo de diferentes maneiras; do que se trata é de transformá-lo” (MARX; ENGELS, 2002, p. 103). Isso quer dizer que a Filosofia tem que proporcionar uma reflexão e ação sobre as circunstâncias que são inseparáveis de uma ação sobre as consciências. É a conexão histórica entre a filosofia e a ação. Esta relação, na verdade, é historicamente empreendida pela Filosofia. A questão é saber a que propósito, a que interesse tem servido a Filosofia? Ao interesse de compreensão e manutenção ou de transformação? Há um “amor pela sabedoria” de maneira desinteressada? Em que relação deve estar a relação da Filosofia com o mundo? Acreditamos que a Filosofia sempre esteve em relação com o mundo como objeto de interpretação-compreensão, assim como objeto de sua intervenção-ação. A relação entre conhecimento e ação é intrínseca tanto à teoria quanto à prática humana. Mas, a questão é justificar, a partir da interpretação do mundo, que a ação pode ser apenas de aceitação do que é, de dar conta do que existe, de manter o estado atual de coisas. Afinal, a “contemplação” do mundo é também uma práxis, que pode se integrar a uma práxis transformadora, ou apenas uma práxis reacionária, especulativa, idealista? Defendemos a tese que a Filosofia tem um caráter de divergência, de mostrar as contradições do mundo, das relações humanas, de busca de compreensão do real, de ver o mundo como objeto de práxis. Isso significa teorizar sobre a prática, assim como ser “crítica teórica das teorias que justificam a não transformação do mundo, e como teoria das condições e possibilidade de ação” (SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 1977, p. 163). Neste sentido, a reflexão e a prática da Filosofia da Práxis cumprem sua missão histórica de ser uma crítica que questiona a própria problemática, o objeto, a finalidade, o método da Filosofia. Esta disposição é fundamental na formação em Licenciatura em Filosofia, especialmente na atuação no ensino de Filosofia nos níveis Fundamental e Médio. A experiência no ensino de Filosofia nos diferentes níveis de ensino tem mostrado que uma das dificuldades mais incisivas em relação à Filosofia e seu ensino é o distanciamento entre teoria e prática, ou seja, uma questão de conteúdo e método, de práxis pedagógica que responda à necessidade de uma metodologia de ensino de filosofia mais próxima ao concreto histórico. Esta questão foi insistentemente discutida por Marx e Engels, e pode ser sintetizada em uma clássica e sempre atual passagem: “Indivíduos determinados com atividade produtiva segundo um modo determinado entram em relações sociais e políticas determinadas. Em cada caso isolado, a observação empírica deve mostrar nos fatos, e sem nenhuma especulação nem mistificação, a ligação entre a estrutura social e política e a produção. [...] A produção das idéias, das representações e da consciência está, a princípio, direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens. [...] São os homens que produzem suas representações, suas idéias etc., mas os homens reais, atuantes, tais como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e das relações que a elas correspondem, inclusive as mais amplas formas que estas podem tomar. A consciência nunca pode ser mais que o ser consciente; e o ser dos homens é o seu processo de vida real” (2002, p. 18-19). A Filosofia da Práxis se fundamenta na contradição, no conflito, na negação da negação, na ontologia da imanência, na história, na totalidade, na mediação política, na análise crítica da relação homem-natureza-sociedade em contraposição a toda filosofia especulativa, transcendental, de análise e explicação linear, idealista. Ou seja, a Filosofia da Práxis, na sua dinamicidade que privilegia as relações, o predomínio do material sobre as idéias, contrapõe à concepção metafísica, que se fundamenta na análise de individualidades e essências. Ou seja, é o homem concreto analisando sua condição concreta, como ser de práxis, no sentido de atividade livre, universal, criativa e autocriativo, por meio do qual o homem produz e transforma o mundo histórico e a si mesmo como “sujeito de vida e de ação” (KOSIK, 1976, p. 229). Neste sentido, concebemos o recurso à Filosofia como algo essencial, visto que entendemos a Filosofia como uma atitude histórica de análise das questões que totalizam as relações do indivíduo humano frente ao seu tempo e seu mundo. Não se trata de uma investigação sobre a objetividade do pensamento somente, mas sim a exigência de que toda Filosofia seja uma resposta do homem aos grandes problemas de cada época, da condição humana e suas contradições, como ser, consciência e ação. O pensamento filosófico, deste modo, torna-se também uma antropologia radical, visto que busca dar ao homem a consciência de si e de sua ação histórica. Assim, a Filosofia da Práxis reclama seu espaço no de reflexão, de formalização de pesquisa, de projeto pedagógico, de metodologia de análise, de elaboração de subsídios e recursos pedagógicos, no processo ensino-aprendizagem da Filosofia para a formação e atuação de pensadores críticos na educação nos níveis Fundamental e Médio. Esta dinâmica requer um ensino que não pode ser reduzido a um exercício de pensamento que se detém em estratégias de argumentação dissociadas de circunstâncias vividas pelo educando e de conjunturas históricas que ele enfrenta, mas que tem por referência a busca e compreensão do real como condição de sua transformação, como diz Marx: “O método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado” (MARX, 2000, p. 40). A Filosofia não pode ser reduzida a um discurso sofisticado e solipsista, mas que se constitui em Filosofia da e para a práxis, entendida como o reconhecimento de que o poder representativo da razão e do pensamento são por demais limitados para esgotar a subjetividade, há um “para quê” em toda a representação, que corresponde a uma nova visão do sujeito pensante: subjetividade não se resume a pensar, mas à capacidade de dar concretude histórica a projetos e ações. O sujeito que pensa vai além, é um sujeito histórico.“A primeira condição de toda a história humana é, naturalmente, a existência de seres humanos vivos. A primeira situação a constatar é, portanto, a constituição corporal desses indivíduos e as relações que ela gera entre eles e o restante da natureza. [...]Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião e por tudo o que se queira. Mas eles próprios começam a se distinguir dos animais logo que começam a produzir seus meios de existência, e esse passo à frente è a própria conseqüência de sua organização corporal” (MARX; ENGELS,2002, p. 10-11). Compete à Filosofia da Práxis desenvolver um processo didático-pedagógico que permita aos educandos experimentar o potencial crítico e criativo do pensar, levando a crítica a seu termo, ou seja, o de permitir a construção de um novo mundo de ações e significados. Para isso, é necessária uma Filosofia que propicie ao educando a possibilidade um novo olhar, de indignação, de incômodo, de problematização, sobre suas circunstâncias pessoais e sociais, como condição de superação da acomodação, do indiferentismo, expresso por asserções de que “o mundo é assim mesmo, sempre foi assim”, “tudo está bem” ou “tudo está mal”, “nada muda”, que tudo esta determinado. A nossa intenção, nesta reflexão, é de contribuir para a que Filosofia não perca seu estatuto próprio, não como comumente é vista e tratada, como misteriosa, fechada, especulativa, sectarista, própria de iniciados, mas da Filosofia na sua genuína acepção, como uma forma de conhecimento “crítica, radical e de conjunto” (SAVIANI, 1986, p. 15), que pode ser apropriada por todos os seres humanos, pois “todos os homens são filósofos” (GRAMSCI, 1995, p. 18), que propicie ao ser social a condição de conhecer, de ter ciência do real e de, portanto, de orientar os rumos da história individual e coletiva, de intervir e transformar o mundo de forma livre, criativa, consciente,responsável. Referências bibliográficas GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. KOSIK, Karel. Dialética do concreto. São Paulo: Paz e Terra, 1976.MARX, Karl. Introdução à crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural,2000. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez, 1986. VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. |