|
RESUMO O artigo tem por objetivo fundamental trazer uma noção introdutória sobre o pensamento do filósofo Merleau-Ponty bem como discorrer acerca da importância de se compreender a noção de corpo apresentada pelo estudioso. Especialmente, a sua ênfase que concerne no papel que o corpo possui da compreensão dos gestos e das palavras, demarcando o caráter corpóreo da significação, cuja apreensão se dá pela relação humana de reciprocidade de comportamentos. Além disso, aponta para a crítica do filósofo sobre a expropriação do sentido da palavra realizada tanto pela corrente idealista quanto pela concepção empirista. Merleau-Ponty observa que a palavra é dotada de sentido, apontando que a compreensão da linguagem remete a análise do gesto. Sob este aspecto, o caráter fundador da linguagem pode ser observado nas relações entre fala e pensamento, sentido e palavras, entre outras relações que constitui o fenômeno expressivo, assim como a revelação de nossa facticidade perante o mundo, aos demais homens e a nós mesmos. Palavras-Chaves: filosofia pontyana, corpo, linguagem, facticidade, mundo.
A IMPORTÂNCIA DA NOÇÃO DE CORPO E A LINGUAGEM NO PENSAMENTO DE MERLEAU-PONTY Inicialmente, o presente artigo possui as seguintes fundamentais: trazer uma noção introdutória do pensamento filosófico de Merleau-Ponty e, posteriormente apresentar um esboço sobre a questão da linguagem, tendo por base a obra Fenomenologia da Percepção. O primeiro questionamento é: Como pode o homem ser sujeito e objeto de conhecimento ao mesmo tempo? Através de uma análise entre o pensamento de Descartes e a ontologia, Merleau-Ponty tenta retirar um debate acerca das ciências humanas. Para ele, o dualismo cartesiano marcou todo o pensamento moderno. Afinal, é esse modelo que é influência às ciências humanas, desde os pioneiros ao longo do século XIX os quais conceberam-nas com base para o modelo das ciências naturais, como se isso devesse assegurar, por si só, a cientificidade buscada pelas ciências. Já a ontologia reduz o ser do sujeito, da alma, do pensamento, em pura “interioridade”. As ciências humanas, por sua vez, reduzem o próprio subjetivo. Diferentemente, o filósofo pretende mostrar um outro tipo de relação entre filosofia e ciências, particularmente, entre filosofia e ciências humanas. A descrição pontyana do ser-no-mundo é uma inovação que passa pela crítica ao pensamento objetivo e seu modo de tratar a experiência, tanto no âmbito científico quanto filosófico. Assim, o estudioso parte do pressuposto que o mundo nos cerca, somos testemunhas dessa presença. O mundo age sobre nós, mas não na forma de um estímulo ao qual responderíamos automaticamente. Pertence a um campo que pressupõe, por sua vez, uma organização: é no interior desse mundo organizado, desse mundo “humano” que o estímulo age. Antes que unilateral, a relação é circular: do mundo a nós e de nós ao mundo1. Não é no espaço da física, no espaço clássico, homogêneo e geométrico que habitamos; é no espaço da experiência, mas é nesse que compomos pelo nosso corpo em algo continuado. Tomemos o exemplo simples da sensação, tratado por Merleau-Ponty na introdução à Fenomenologia da Percepção: o que seria a sensação? Aqui, o estudioso pretende uma das formas de objetivismo, aquela que, para evitar toda confusão, começa por dividir o objeto a ser conhecido em partes tão simples quanto possível. A sensação seria o elemento simples. No entanto, a mais simples das nossas percepções de fato, nota o filósofo, envolve relações e não elementos absolutos. Se figurarmos um único ponto, nós o faremos em um espaço, sobre uma base a partir da qual ela se destaca; logo, ele já é parte desse todo relacionamento, não um elemento simples e absoluto. -
-
O mundo está ali antes de qualquer análise que eu possa fazer dele, e seria artificial fazê-lo derivar de uma série de sínteses que ligariam as sensações, depois os aspectos perspectivos do objeto, quando ambos são justamente produtos da análise e não devem ser realizados antes dela.A análise reflexiva acredita seguir em sentido inverso o caminho de uma constituição prévia, e atingir no “homem interior”, como diz Santo Agostinho, um poder constituinte que ele sempre foi. (M. PONTY, 1996, p. 03).
O que é singular dentro do pensamento de Merleau-Ponty é que essa questão não pode ser resolvida apenas no nível da filosofia, ainda que a filosofia se liberte de toda forma de idealismo. Justamente porque o que está em foco é o ser-no-mundo, a esfera de atuação das ciências humanas está em relação de continuidade com a filosofia. Percebe-se que a ampliação do campo investigativo da fenomenologia husserliana exige completar o estudo dos modos como a consciência constitui seus objetos no conhecimento, ou seja, através do exame da experiência efetiva dos sujeitos concretos em sua inserção no mundo; não podemos negar a dimensão existencial do projeto filosófico de Merleau-Ponty. A partir desse horizonte de intenções, a fenomenologia ganha um redirecionamento visando seguir a descrição direta da nossa experiência tal como ela é relacionada com o mundo, que nos constitui e por nós é constituído. A crítica pontyana remete aos sistemas conceituais da tradição que foram incapazes de dar conta da experiência humana, isto é, a relação concreta com os dados do mundo. O filósofo descreve o corpo como fenomenal agente ativo na produção da experiência, e como virtual, um campo de possibilidades que se volta para um ambiente que ele mesmo constrói. Neste ponto, ele atribui papel fundamental à atividade perceptiva no que concerne à relação entre sujeito e mundo. Mediante a esta perspectiva, o corpo é concebido como sede da percepção, em sua obra, é tema central da análise do ser humano em seu meio natural e social. Para Merleau - Ponty, o corpo é justamente o meio pelo qual as coisas podem ser reconhecidas assim como são. -
-
A percepção não é uma ciência do mundo, não é nem mesmo um ato, uma tomada de posição deliberada; ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e ele é pressuposto por eles. O mundo não é um objeto do qual possuo comigo a lei de constituição; ele é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas percepções explícitas. A verdade não “habita” apenas o “homem interior”, ou, antes, não existe “homem interior”, o homem está no mundo, é no mundo que ele se conhece. (M. PONTY, 1996, p.06)
Neste sentido, para o filósofo a experiência deve ser assumida como fato último e não como efeito psicológico de processos físico-químicos exteriores a ela. Desse modo, ele contrapõe-se à idéia de que as coisas percebidas sejam apenas representações causadas pelo mundo. Assim, após rejeitar os pressupostos neokantianos e ao recorrer à fenomenologia husserliana, o filósofo tenta elucidar a prioridade da experiência perceptivo-motora no que concerne ao esclarecimento do contato primordial entre ser humano e mundo. A Funcionalidade Do Corpo Como Expressão E Fala Se observarmos a história da filosofia, especificamente as correntes filosóficas tradicionais anteriores ao século XIX, notaremos que o tema da linguagem não foi algo de profundas investigações ou debates filosóficos. Partindo da teoria platônica, a linguagem não passava de mera tradução das “idéias perfeitas”, sendo apenas uma arcaica exteriorização do pensamento e, devido a tal, digna de suspeita para o “verdadeiro saber filosófico”, prova disso confere na polêmica sobre os escritos encontrados referente a esta época. A ciência também não foi capaz deste problema já que a linguagem, sob tal ótica, foi reduzida a simples emissão de voz, como se a mesma fosse apenas um intrincado sistema convencional a nos garantir vida em sociedade. Todavia, Merleau-Ponty adverte-nos que ambas concepções distanciam-se do problema a linguagem e perdem a especificidade de seu fenômeno. A partir do pensamento filosófico de Merleau-Ponty, a saber, especificamente da obra Fenomenologia da Percepção, podemos destacar a noção eminentemente corpórea da expressão, como a fala emerge enquanto gesto de um corpo a qual é completa relação de sentido com o mundo. Mas, é importante enfatizar que o caráter corpóreo da significação nos impede que tomemos apenas como objeto puro de pensamento, ou seja, é no sentido do comportamento que as significações das palavras se encontrarão, é no âmbito das intenções práticas que se realiza a comunicação. -
-
O sentido das palavras é considerado como dado com os estímulos ou com os estados de consciência que se trata de nomear, a configuração sonora ou articular da palavra é dada com os traços cerebrais ou psíquicos, a fala não é uma ação, não manifesta possibilidades interiores do sujeito: o homem pode falar do mesmo modo que a lâmpada elétrica pode tornar-se incandescente. Se há distúrbios eletivos que afetam a linguagem falada excluindo a linguagem escrita, ou a escrita excluindo a fala, e se tal linguagem pode desagregar-se em fragmentos, é porque ela se constitui por uma série de contribuições independentes e porque a fala, no sentido geral, é um ser de razão. (M. Ponty, 1996, p.238).
Apesar do fato de que a linguagem esteja inserida em grande parte da produção pontyana, na obra Fenomenologia da Percepção veremos que Merleau-Ponty ao realizar uma releitura das tradicionais concepções em filosofia da linguagem, estabelece uma relação entre as abordagens empirista e intelectualista; apontando que ambas têm em comum a desconsideração do potencial expressivo da palavra e partem de um pressuposto da exterioridade entre signo e significado. Enquanto no empirismo, a linguagem é objetiva e o sujeito inexiste, no intelectualismo, ela é mera operação subjetiva e a posse do sentido é remetida ao sujeito pensante. Significa que, em ambas considerações a palavra não possui significação própria. Assim, o projeto do filósofo nada mais é que ultrapassar tais concepções mediante a atribuição de um sentido à palavra2. Dessa maneira, o pensamento do estudioso inova ao reconhecer a linguagem como modo original de sentido e ao realizar a dissolução da dicotomia sujeito-objeto presente nas considerações tradicionais, pois para ele a linguagem não é pura reprodução do pensamento, mas sim fonte originária de sentido do próprio pensamento. Por exemplo: quando se apreende um objeto (livro) e pronunciamos sobre ele, não recorremos a uma série de categorias3 sob o qual o definimos para compreendermos do que (objeto/ coisa) estamos falando, contudo, observamos que a palavra (livro) contém em si um sentido e ao aplicá-lo a esse objeto (livro) temos consciência desta apreensão. Portanto, a palavra não é o signo do pensamento na qual se estabelece uma relação onde um fato aponta a outro como simples referências exteriores, mas o sentido está impresso na palavra e a mesma é a expressão do sentido. -
-
Um pensamento que se contentasse em existir para si, fora dos incômodos da fala e da comunicação, logo que aparecesse cairia na inconsciência, o que significa dizer que ele nem mesmo existiria para si. À famosa questão de Kant, podemos responder que pensar é, com efeito, uma experiência, no sentido em que nós nos damos nosso pensamento pela fala interior e exterior. Ele progride no instante e como que por fulgurações, mas em seguida é preciso que nos apropriemos dele, e é pela expressão que ele se torna nosso. A denominação dos objetos não vem depois do reconhecimento, ela é o próprio reconhecimento. (M. Ponty, 1996, p.242).
A palavra, afirma Merleau-Ponty, não é um mero signo, isto é, não se trata de um simples fenômeno que se inter-relaciona a outro assim como a fumaça anuncia o fogo4, ao contrário, a palavra possui sua força de significação. Desse modo, sustenta-se à afirmativa de uma significação que está nelas, que é inerente e inseparável destas. Exemplificando melhor: quando um sujeito fala, não se apresenta previamente as palavras que serão utilizadas no ato da fala, pois o meio de exteriorizá-las é pronunciando-as, ou seja, o sujeito falante não põe expressamente objetos ou relações. Sob este aspecto, cabe ressaltar que acerca da linguagem em sua relação com o sentido: não há anterior, nem posterior. Para tal, Ponty considera necessário uma recuperação do movimento expressivo primário, no qual ultrapassa e limita o sentido esboçado na percepção, o que nada mais é: inserir uma delimitação ao explorar um direcionamento de sentido em relação a outros possíveis. Significa que a percepção é o sentido que possibilita a abertura para o mundo e a linguagem é o contínuo processo de tal abertura deste na medida em que retoma, modifica e prolonga as relações de sentido começadas pela própria percepção. A relação entre a fala5 e a análise do sentido do gesto corporal prefigura a intenção do filósofo de buscar no corpo a origem do sentido da linguagem, isto é, para o autor o modo de apreensão do sentido da fala do outro é o mesmo como o do gesto corporal: eu compreendo na medida em que o considero como algo que possa fazer parte do meu próprio comportamento. -
-
[...] Da mesma maneira, não preciso representar-me à palavra para sabê-la e para pronunciá-la. Basta que eu possua sua essência articular e sonora como uma das modulações, um dos usos possíveis de meu corpo. Reporto-me à palavra assim como minha mão se dirige para o lugar de meu corpo picado por um inseto; a palavra é um certo lugar de meu mundo lingüístico, ela faz parte de meu equipamento, só tenho um meio de representá-lo para mim, é pronunciá-la, assim como o artista só tem um meio de representar-se a obra na qual trabalha: é preciso que ele a faça”. (M. Ponty, 1996, p.246).
Aqui, faz-se necessário esclarecer que Merleau-Ponty ao abordar a linguagem em sua origem, não significa recuar cronologicamente às fontes originárias primitivas da comunicação6. Tal recuo é um meio metodológico que visa problematizá-la através de uma volta à sua dimensão pré-reflexiva e fundamental. Assim, o estudioso pretende recuperar o movimento primordial do ato expressivo, o que corresponderia à língua no estado em que ela mesma se realiza enquanto expressão, daí sua valorização ao problema da linguagem enquanto língua falada e vivida; levando em conta a perspectiva daqueles que a vivenciam. É neste ponto que podemos observar a referência de Ponty ao que é para ele uma das prioridades no estudo do problema lingüístico: o ato da fala. É interessante observar que a análise pontyana nos revela duas tradições contraditórias, mas embasadas em uma mesma concepção de linguagem. Para uma, a fala está condicionada a leis de associação e para a outra, a fala depende de uma operação subjetiva doadora de sentido. No entanto, as duas correntes concordam que a palavra não tem um sentido que lhe pertença, diferentemente na concepção do filósofo de que a compreensão da linguagem só pode ser a partir do fato de que a palavra é dotada de sentido próprio. Tal semelhança entre as duas correntes tradicionais de pensamento não é por acaso, pois ambas convergem para um ponto em comum: a admissão da exterioridade entre signo e significado. É exatamente pelo fato da palavra permanecer afastada da significação, nas duas vertentes, que a crítica pontyana converge para um único ponto.7 Dessa maneira, não podemos direcionar a uma compreensão efetiva da linguagem enquanto estivermos presos às idéias tradicionais e enquanto a linguagem for desconsiderada ou desprovida de autonomia e valor expressivo. É através, dessa ruptura e da atribuição de um sentido próprio à palavra que Merleau-Ponty visa superar as limitações das duas concepções mencionadas8. Mas, se a palavra é detentora de seu sentido, resta-nos compreender a maneira pela qual tal sentido é criado e como se processa pela comunicação. Se a percepção do sentido da palavra não ocorre por uma pura interpretação subjetiva, conforme o intelectualismo, nem mesmo como dado em nossa experiência, segundo a vertente empirista, como se dá esse sentido pela comunicação? Para responder tal questionamento, o filósofo recorrerá ao gesto corporal para esclarecer a comunicação pela palavra, buscando no corpo não só a compreensão da problemática da linguagem, além disso, o entendimento de uma questão mais abrangente que é a expressão. Segundo Merleau Ponty, apreendemos o significado da palavra assim como se apreende o sentido de um gesto9. -
-
[...] Portanto, existe uma retomada do pensamento do outro através da fala, uma reflexão no outro, um poder de pensar segundo o outro que enriquece nossos pensamentos próprios. Aqui, é preciso que o sentido das palavras finalmente seja induzido pelas próprias palavras, ou, mais exatamente, que sua significação conceitual se forme por antecipação a partir de uma significação gestual que, ela, é imanente à fala. E, assim como em um país estrangeiro começo a compreender o sentido das palavras por seu lugar em um contexto de ação e participando à vida comum, da mesma maneira um texto filosófico ainda mal compreendido me revela pelo menos um certo “estilo” - seja um estilo spinozista, criticista ou fenomenológico- que é o primeiro esboço do seu sentido, começo a compreender uma filosofia introduzindo-me na maneira de existir desse pensamento, reproduzindo seu tom, o sotaque do filósofo. Em suma, toda linguagem se ensina por si mesma e introduz seu sentido no espírito do ouvinte. (M. Ponty, 1996, p.244).
Partindo desse raciocínio, o estudioso recorrerá à expressão emocional dos gestos para encontrar os primeiros indícios da linguagem como um fenômeno autêntico, por outro lado, ele não nega que o ato da comunicação seja contingente e que existe sempre em face de uma dada situação. É exatamente por isso que por muitas vezes, inicialmente, temos dificuldades em aceitar ou compreender certos hábitos, comportamentos e formas de vida de outros homens com cultura completamente diferentes da nossa realidade. Fatores que nos comprovam que a cultura jamais nos dá significações prontas e acabadas, a origem do sentido nunca se conclui. Sob este aspecto, é importante esclarecer que os gestos são retomados por um ato de compreensão cujo fundamento nos leva à situação em que o sujeito ou os sujeitos da comunicação, o eu e o outro, estão envolvidos no processo de troca de intenções e gestos ou articulações. Isto é, que o significado expresso pelo outro vem de encontro a mim que legitimo o sentido, e assim, reciprocamente; reconheço no outro aquilo que é próprio às minhas possibilidades e que possam fazer parte da minha própria conduta. A comunicação só realiza-se quando há “confirmação do outro por mim e de mim pelo outro” (Merleau-Ponty, 1994, p.252). Então, para compreendermos o sentido das palavras de quem nos fala, devemos, antes de tudo, estar a par não só dos vocábulos, mas, sobretudo, das articulações entre elas, ou seja, a comunicação se dá entre sujeitos falantes que possuem algo em comum, seja um estilo ou um mesmo mundo. Neste sentido, podemos afirmar que o corpo enquanto fenômeno e não enquanto objeto é portador de uma capacidade única de apreender o sentido de outra conduta, seja mediante a fala ou gestos do outro. Segundo Merleau-Ponty, somente conseguimos compreender a intencionalidade do outro e sua atitude para conosco à medida que através do nosso corpo possamos tomá-la como nossa. É neste ponto fundamental que podemos encontrar a valorização do filósofo no que se refere ao importante papel do corpo, pois o corpo é intencionalidade que se exprime e que contém a própria significação.A nossa relação com os demais exige que somente mediante a tal temos a possibilidade de nos dirigir em relação ao outro e ao mundo. A crítica de Merleau-Ponty às teorias da linguagem e sua tese de recusa da exterioridade entre significante e significado visa afastar qualquer hipótese que opere uma cisão entre a fala e o pensamento, na verdade, eles estão envolvidos um no outro; o sentido está enraizado na fala e a fala é a existência exterior do sentido. Na concepção do filósofo, aquilo que se exterioriza constitui-se na expressão, não sendo anterior a esta, tampouco separável dela. E o exprimido ou exteriorizado não existe antes da expressão, pois são inseparáveis10. Exemplo disso é que compara a expressão da linguagem com a arte, especificamente, com a música e a pintura, na quais se pode reconhecer facilmente que o exprimido não existe antes da expressão. Dessa maneira, em todas as modalidades expressivas, a intenção é oferecida ao sujeito no ato da comunicação bem como no ato da criação artística11, seu sentido só é traduzível nele mesmo. -
-
A expressão estética confere a existência em si àquilo que exprime, instala-o na natureza como uma coisa percebida acessível a todos ou, inversamente, arranca os próprios signos – a pessoa do ator, as cores e a tela do pintor – de sua existência empírica e os arrebata para um outro mundo”. (M. Ponty, 1996, p.248).
Podemos observar que todas as afirmativas nos levam a algumas considerações importantes: o significado emerge da palavra, porém não se reduz a ele, pois encerra uma porção de significações implícitas e de limites imprecisos que vão além de sua troca comum; sentido cujo objetivo não é outro senão ter seu movimento de expressão, que retoma a si mesma para lançar-se além. E assim, a expressão não se esgota o que nos remete ao fato inquestionável da presença de homens entre homens e o mundo12. É neste contexto de reciprocidade de comportamentos, que a fala e os demais sentidos expressivos se originam da multiplicidade das significações vividas sobre as significações adquiridas. -
-
Assim, a linguagem e a compreensão da linguagem parecem evidentes. O mundo lingüístico e intersubjetivo não nos espanta mais, nós não o distinguimos mais do próprio mundo, e é no interior de um mundo já falado e falante que refletimos. Perdemos nossa consciência do que há de contingente na expressão e na comunicação, seja junto à criança que aprende a falar, seja junto ao escritor que diz e pensa pela primeira fez alguma coisa, seja enfim junto a todos que transformam um certo silêncio em fala. Todavia, está muito claro que a fala constituída, tal como opera na vida cotidiana, supõe realizado o passo decisivo da expressão. Nossa visão sobre o homem continuará a ser superficial enquanto não remontarmos a essa origem, enquanto não reencontrarmos, sob o ruído das falas, o silêncio primordial, enquanto não descrevermos o gesto que rompe esse silêncio. A fala é um gesto e sua significação um mundo”. (M. Ponty, 1996, p.230).
Em suma, de acordo com Merleau-Ponty, não possuímos pensamentos puros, pois desde a sua origem nos debatemos com um excesso de significação que retoma o significante e o leva a novas expressões. Mas, por outro lado, a linguagem assume e transforma uma seqüência de coisas anteriores a ela mesma como os sentidos advindos da percepção. Simultaneamente, a expressão da linguagem transforma e transcende o fenômeno perceptivo, no sentido em que seu movimento consiste em nos levar para além, tendo por base as relações humanas no mundo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. Trad.Carlos Alberto Ribeiro. Coleção Tópicos. São Paulo. Martins Fontes. 1996. ________. A linguagem Direta e as Vozes do Silêncio. In: textos escolhidos. Trad. Marilena Chauí. São Paulo, Abril Cultural, 1975 (Col. Os pensadores). _______. Sobre a Fenomenologia da linguagem. In: Textos escolhidos. Trad. Marilena Chauí. São Paulo. Abril Cultural, 1975 (Col. Os pensadores). |